sábado, 11 de junho de 2011

Vestibular


A história da aprovação universitária no Brasil é um edifício mal construído. Podemos pintar, mobiliar, varrer, botar janelas, tirar janelas... Mas senão mudarmos sua estrutura, o prédio sempre estará prestes a cair de novo.
            O maior reflexo disso está na imensa angústia que o aluno vive no preparatório. A impressão, como estudante digo, é a de que o ensino fundamental e médio não significaram para nada, porque o vestibular tem uma forma tão desconexa com o tempo, que bruscamente somos obrigados a entrar em outra dinâmica escolar: mais dura, mais pragmática. Menos inteligente.
            O ilogismo dos critérios de hoje nos remete a sensação de que, por mais que as provas tentem ser coerentes, só servem para diminuir o número de pessoas aprovadas (problema histórico dos vestibulares no Brasil). Porque, na prática, os alunos estão sujeitos aos caprichos de um sistema de avaliação que adimite notas 75,6, mas não 75,5.
            (E como Millôr disse sobre a natação: "Tenho absoluta incapacidade de admirar um homem apenas porque ele é melhor do que o outro um centésimo de segundo".)

           No passado, existiam somente três faculdades: direito, medicina e engenharia, ou seja, humanas, biologia e exatas. Porém, hoje em dia as profissões tem seus limites muito mais difusos e misturados e fica difícil escolher o melhor profissional simplesmente pelas matérias em que ele é bom .
            Pegue o meu próprio exemplo: tenho uma facilidade natural para a matemática. Gosto de números, contas, cálculos e raciocínio lógico. Sempre fui aluno nota 8,5, 9 ou até 10. Não à toa, me diziam que meu caminho era na área de exatas.
            Depois de outras profissões, comecei a pensar em engenharia e matemática: a engenharia que eu escolhi foi a ambiental e a área matemática que pensei foi a de professor. Tudo que eu queria combinava para a vida, a sociedade, a natureza: medicina, direito, educação, biologia etc.
            Mas a sugestão que me deram de seguir a carreira de matemático é pontualmente pertinente, porque, dentro do método que é usado, esse é o meu ponto forte.
            Mas então, se pergunte: o que dinstingue o bom profissional realmente é um décimo para os demais ou sua nota em biologia e química?
        
            A partir disso, podemos ter a triste percepção de que, mesmo assim, é o vestibular que seleciona os profissionais deste país e que são eles que determinam o nosso funcionamento interno. São os exemplos a serem seguidos e detêm um dos maiores privilégios que se pode ter: o conhecimento.
             Nesse contexto de desconstrução pedagógica nascem diversos problemas sérios para o Brasil. Por isso eu quero parabenizar a todos que continuam levando o ensino a sério, independente das dificuldades que ele nos apresenta. Porque são pessoas que não desistiram do que querem e que continuarão lutando pelos seus princípios. Mesmo se estiverem contra a maré.

Obrigado,
Miguel Kubrusly


Para um aprofundamento maior:

8 comentários:

Anônimo disse...

No texto, ao dizer "A impressão, como estudante digo, é a de que o ensino fundamental e médio não significaram para nada(...)" você se refere ao ensino médio básico e não ao técnico, onde há conteúdo pragmático. Os dois únicos problemas do ensino técnico, ao meu ver, são: o baixo investimento( publico e privado) e a falta de foco quanto ao vestibular.

Miguel disse...

Sim, me refiro ao ensino médio básico. A distinção entre o ensino técnico e o normal é um outro assunto. De antemão, digo que já estudei em uma escola técnica do Rio de Janeiro e não gostei. Achava, como você mesmo disse, pragmática demais: não sabia ouvir e tinha mentalidade estreita. Além de ser apressada com a matéria.

gabishow disse...

curti

Anônimo disse...

A prova de que o edifício - antiquíííssimo!!!!- está mal construído é que eu passei nos 4 vestibulares que fiz e sou zero em química, física e matemática!

Anônimo disse...

Na verdade, o problema começa antes do vestibular. O real maléfico é o atual sistema de ensino(não necessariamente público), estabelecido durante o regime militar e importado da Itália Fascista. É um sistema que foca resultados e o crescimento do país como um todo, ao invés da melhoria do país partindo da integração entre os avanços individuais, o que, para mim, seria o ideal.

Miguel disse...

SIm! Porque, geralmente, um país como "um todo" é idealizado por poucas pessoas, que concentram o poder em suas mãos. E, em nosso caso, isso aconteceu com o Vargas, que usou o ensino para promover o que ELE chamava de nação.
Obrigado pela contribuição.

Anônimo disse...

Mandou bem.

henrique disse...

curti tbm mano